terça-feira, 27 de setembro de 2011

"Vento"














"Passaram os ventos de agosto, 
levando tudo.
As árvores humilhadas bateram,
bateram com os ramos no chão.
Voaram telhados,voaram andaimes,
voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos
e uma esperança que ninguém viu, num coração.

Passaram os ventos de agosto,
terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou,
quebrando-os, o seu tropel.
Mas, 
sobre a paisagem cansada da aventura excessiva
- sem forma e sem eco,
o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel. "
_ Cecília Meireles _

Embora não seja meu, me identifico. 

Passou Agosto, 
mas o vento custa a passar
Me sinto varrida,
'voaram coisas imensas'
e sentimentos que ninguém viu ...
Mas, ressecada e ressequida
sinto que ainda há o que levar...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Quisera que dera

















Há o invisível cordão da solidão
a me transpassar o peito...
Há infinitas garras e nós
a me sufocar de jeito...
Quisera a sua mão
a me aquietar no leito
Quem dera a sua voz no ouvido
a fazer efeito
Suspiros tão profundos
que varam o pulmão inteiro
Lágrimas tão ácidas
que abrem crateras embaixo do chuveiro
Quisera trazer-te, à tarde
Ilusão inglória...
Quem dera não ter sido covarde
pra ver vitória
Quisera poder tomar-te
a vontade de botar tudo fora
Quem dera o descontrole,
o não ter hora...
Quisera falar-te tudo
e não ter memória
Quem dera ver-te mudo
entregue à estória
Quisera fazer de conta
e pôr-me mundo afora
Quem dera não fosse tarde
pra ser agora...

domingo, 24 de julho de 2011

"Don't you dare...."
















Nunca saiu das minhas lembranças
nem a frase nem a cena....
E me vem em outros (vários) contextos agora
Como as máximas:
"não acenda um fogo que não poderá apagar"
ou "só ponha o chapéu onde a mão alcance"
Então... por favor... não ouse...
Nem sequer venha com as clássicas
piadas de bombeiro 
Não venha dizer que se for muito alto 
você usa uma escada...
Porque esse alarme de incêndio 
nem vai chegar a soar...
E se for do tempo do 'panamá'
aí, meu nêgo, é que não vai mesmo rolar...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Inverno (interno)















Não sei se sinto mais frio 
fora ou por dentro de mim...
Não sei se é o vento que chega
ou o sopro que sái
que me arrepiam a alma desse jeito...
Sei é que não  há palavras que consigam agasalhar 
nem corpo nem coração nesse inverno solitário!
Sei é que não há abraços que aqueçam
(ou vençam) à distância...
Fora isso, regelam ainda mais umas lembranças ....
De uma certa mão acariciando os pelos 
do vão das minhas costas
De um braço forte
(extensão dessa mão e nessa ordem mesmo)
a me contornar
De um certo ombro acolhedor para se deitar
num abraço aconchegante e protetor 
que, tenho certeza, ia me esquentar...

sábado, 28 de maio de 2011

Diário interestelar 1215
















Num flash fomos à velocidade da luz 
Buraco negro, tunel,
nebulosa
caleidoscópio de cores...
Gravidade zero,
movimentação elíptica,
sentidos amplificados...
No meio da mata iemanjá reluzia,
manto aceso por fadas estelares.
Entidades ancestrais,
encorporadas em mulheres nuas,
dançavam enlouquecidas
em meio às fogueiras de Beltame,
enquanto o olhar do cavaleiro
extraia das entranhas desejos antigos.
Bençãos e perdões pairaram como enxames.
Serpentes e escorpiões guerreavam 
pelo pedaço de chiclete 
grudado na teia da memória...
Templos de outrora ruiam
na lava da supernova que nascia
O rolo de filme cortado
girava descontrolado na moviola,
martelando sons ensurdecedores,
trazendo edições e colagens desgovernadas...
O ogro e o príncipe encantado,
a fumaça que esconde o ninja,
que vira mestre jedi
que vira fera,
que vira sapo,
que nem com o beijo do amor verdadeiro
revela princesa,
mas bruxa, 
cigana insana,
vidente
e iansã...
Frio do fundo da alma
Noite do lado mais escuro da  mente
Tambores do fundo do peito
Açoites no abismo da boca do estômago...

Then... neither all the king's horses
nor all the king's men
could ever put Humpti Dumpti together again

domingo, 10 de abril de 2011

Pré Inv (T) ernada....


 















Sabe aqueles dias em que não se quer falar com ninguém 
e, justo por isso, todos resolvem te perguntar o que você tem? 
Você responde que não tem nada
( e essa é a resposta! não ter! ), 
mas ninguém acredita, entende ou te deixa em paz?
A paz de não falar nada,
de ficar quieta e calada...
Nada...
Aí você resolve que é melhor fingir,
montar aquelas caras simpáticas e 
distribuir risadinhas amarelas
(amarelo é tão vibrante pra mim... 
por que é sinônimo de sem graça?)
e acaba ficando pior com esse esforço?
Que nada...
Quero a permissão pra estar triste
Abaixo a ditadura do sorriso
Dá pra se sentir saudades 
sem se sentir solitário, abandonado ou só?
Que nada!
Aí você pensa que todos só complicam,
e que você só quer
a companhia do nada
por nada
sem mais nada
Quer ficar invernada, internada, isolada
Quer... nada

segunda-feira, 14 de março de 2011

En(s)tranhas Dores





















 
Estranha dor essa, (medo?), de barriga
Entranha em mim, (fuga?), um amolecer
Estranho-me
Entrando_de novo_ numa fadiga?
Uma estranha,
ao entardecer
que me entranha
Estranho...
estrangeiro amadurecer
sinto nas entranhas
Entranho-me
de estranhos amolecimentos
Estranha
essa estriada,
que se retorce sobre a barriga,
amolece nas entranhas
E estranha velhas fadigas...